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Sobre o fósforo, CO2 e as algas (de novo)

Há uns quatro ou cinco anos eu escrevi um artigo sobre a questão do fósforo e as algas, mas foi publicado por outros blogs, não pela Aquabase. Não sei se esses bancos de informação ainda existem, então decidi escrever sobre isso novamente com algumas atualizações. Acredito que a recente publicação do Livro 3 aumentará ainda mais o nível geral dos aquaristas como fizeram o Livro 1 e o Livro 2, então acredito que valha a pena falar sobre o fósforo mais uma vez.

Bem, para os aquaristas mais novos no hobby talvez já não se fale tanto sobre o fósforo sendo o culpado pelos surtos de algas, pelo menos assim deveria ser. Isso deveria estar enterrado nos fóruns jurássicos quando isso fazia algum sentido até descobrirmos o poder dos fertilizantes líquidos e a função do CO2 no aquário plantado. Contudo, infelizmente ainda aparece um ou outro preso ao passado, talvez por falta de informação mais moderna disponível ou por pesquisas incompletas. Esse artigo é para essas pessoas presas no labirinto da filosofia da remoção do fósforo.

Deixa-me contar a história do começo.

Antigamente, quando praticamente todos tinham problemas muito frequentes e brutais com algas, alguns aquaristas mais sérios foram procurar informações em artigos científicos sobre os surtos de algas em sistemas naturais. Se você der busca nesse tipo de artigo no Google você encontrará infinitas pesquisas apontando que o fósforo e o nitrogênio são os principais causadores da “eutrofização” dos ecossistemas aquáticos. O que seria essa eutrofização? Basicamente é um estado em que há uma oferta muito grande de nutrientes, o que causa uma rápida proliferação de vida, sobretudo de algas. Em outras palavras, ambientes eutróficos são mais produtivos que ambientes oligotróficos, mais estéreis. O principal problema da eutrofização nesses ambientes é uma intensa proliferação de cianobactérias (ou algas azuis), as quais produzem diversas toxinas que deixam a água imprópria para o consumo humano e inviabiliza inclusive o consumo de peixes. Cianobactérias deixam os sistemas doentes por muito tempo, uma vez que são organismos muito adaptáveis e resistentes.

Figura 1 – Lagoa natural tomada por surto de cianobactérias.

Aqui vale ressaltar que quando essas pesquisas se preocupam com algas ou se referem a elas, eles estão considerando quase que exclusivamente as cianobactérias. Ninguém se preocupa com as algas verdes, nem com as marrons, nem com as vermelhas porque elas não são nocivas, não representam valor econômico nem nada. A não ser que as pesquisas se empenhem em algum tipo de classificação taxonômica, é muito difícil que falem sobre essas algas.

Ok, vamos prosseguir.

Quando essas pesquisas apontam o fósforo e o nitrogênio (seja amônia ou nitrato) como os causadores do problema, eles indicam diversas tecnologias para removê-los. No caso do fósforo, é comum que citem a remoção por meio de argilas adsorventes e citam vários casos de sucesso em que conseguiram recuperar ambientes totalmente tomados por cianobactérias. Quando os aquaristas leram isso, eles disseram “Fácil! Vamos usar resinas removedoras a base de alumínio para livrar nossos aquários das algas!” e disseram isso pensando nas suas filamentosas verdes e nas malditas petecas. Bem, nada aconteceu. Talvez alguns aquários até deram uma melhorada, mas nunca deslancharam. Chegaram até a esvaziar parte das mídias do filtro para encher ainda mais de resinas.

E mesmo sem funcionar, talvez porque estava escrito na tábua da ciência, as pessoas continuavam a acreditar nisso. De qualquer forma, parecia ser verdade, porque se colocasse mais fósforo a situação piorava. Foi quando os testes de fosfatos se popularizaram. Todo mundo sonhava em ler zero, mas a proveta sempre ficava azul. Eu sei porque eu também estava fazendo isso, eu senti essa dor. O que eu gastei com testes e resinas removedoras eu poderia ter feito uma viagem de uns 3 dias para o nordeste com minha esposa. No fim das contas eu não tinha viajado nem tinha um aquário equilibrado, mas ao menos tinha a sorte de ainda ter uma esposa torcendo por mim.

Com a evolução do conhecimento sobre nutrição das plantas e o lançamento de várias linhas de fertilizantes de ótima qualidade, aos poucos uma parte dos aquaristas percebeu que esse problema das algas era possível ser controlado com mais fósforo e nitrogênio. Funcionou para aqueles que dispunham de injeção de CO2 e iluminação não tão intensa. Todo o resto ainda não tinha conseguido achar o caminho.

Mas por quê? Não seria uma contradição científica?

Na verdade, não. De forma alguma. O que acontece primeiramente é que nos ambientes naturais a luz e a oferta de CO2 não são fatores variáveis. Segundo, nesses ambientes a nutrição das plantas também não pode ser manipulada. Terceiro, a densidade de plantas nesses ambientes quase nunca é tão densa a ponto de representar volume de consumo páreo para suprimir as algas por competição de recursos. Sob essas leis naturais, os ecossistemas naturais são sempre das algas. O que resta para controlá-las, no fim das contas, é tentar inibí-las por meio da remoção do fósforo e do nitrogênio.

Figura 2 – Ecossistemas naturais não tem muita densidade de flora imersa.

              No aquário plantado nós podemos controlar a intensidade luminosa e a oferta de CO2 dezenas de vezes mais alta que na natureza e rebalancear o equilíbrio do sistema de forma a favorecer as plantas. Em seguida, podemos nutri-las muito eficientemente e podemos plantar com muita densidade de forma a produzir uma taxa de consumo brutal contra as algas. Portanto, não faz sentido remover elementos que funcionam como nutrientes para os agentes que efetivamente inibem os surtos de algas, as plantas.

Com base nessa comparação de variáveis, é fácil perceber que o fator decisivo para o estabelecimento das algas é a falta do carbono e não a presença do fósforo. Quando o CO2 falta e força as plantas ao ciclo foto respiratório C2 (conforme estudado em detalhes no Livro 2), o fósforo e o nitrogênio que não pôde ser assimilado pelas plantas pela limitação da fotossíntese abre uma janela de oportunidades para as algas que se aproveitarão da debilidade das plantas. O fósforo acaba operando como um poderoso multiplicador celular e o nitrogênio como combustível para construção de clorofilas. Aquilo que deveria fortalecer as plantas se volta contra elas. É uma espada de dois gumes e a mão que orienta essa espada a favor das plantas é o CO2 disponível para a fotossíntese plena das plantas.

Figura 3 – Aquário plantado com muita densidade de flora e ampla oferta de CO2.

              A falta de CO2 não afeta as algas porque a demanda delas, por serem organismos unicelulares, é muito menor. Além disso, as algas podem assimilar o carbono de várias formas que as plantas não podem, como por meio da rota C4, por anidrase carbônica e até por algum nível de heterotrofia, como é o caso das algas petecas. O acesso das plantas ao carbono em estado imerso consiste numa desvantagem extremamente injusta em relação às facilidades das algas, o que torna impossível manter um aquário plantado sem injeção abundante de CO2 que desfaça esse jogo de forças e coloque as plantas numa condição bastante antinatural.

Quando o aquarista finalmente entende essa relação entre saúde do aquário e boa nutrição das plantas, seus problemas diminuem significativamente. Alguns problemas ainda podem existir, mas são aqueles relacionados ao funcionamento do biofiltro e razões químicas mais avançadas. Para esses aquaristas, surtos de algas são eventos bem mais raros de ocorrer.
Obrigado pela companhia, até a próxima.Sobre o fósforo, CO2 e as algas (de novo)

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É uma família de fertilizantes projetada e criada pelo Eduardo Fonseca Jr, estudioso da ciência do aquário plantado, escritor de quatro livros do assunto (de título A Ciência do Aquário Plantado). Clique aqui e conheça a linha de produtos FLORAUP!

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