Construir conhecimento real não é nada fácil. Quando obtemos uma informação que faz sentido, é natural que a adotemos como o fato definitivo. Nós passamos a acreditar nela como verdadeira e completa e é impossível saber se ela é uma verdade relativa, uma meia verdade, uma verdade incompleta ou até mesmo uma informação falsa. É preciso muita vivência com o assunto para conseguir classificar a validade e a relevância de uma informação. É preciso saber muito para ser capaz de classificar precisamente uma informação e saber separar o que é apenas verdade do que é relevante. E esse é o ponto máximo do estudo de alguma coisa: adquirir conhecimento pragmático. O conhecimento pragmático transcende a estética do conhecimento, ele transforma sábios em pessoas comuns que abrem a boca apenas para falar o necessário e o fazem na linguagem mais simples possível. Os acadêmicos odeiam esse tipo de sábio; eles fazem parecer fácil, eles parecem tirar o valor do saber. Conhecimento avançado traz vaidade e o que essa turma dos vocabulários arrojados mais teme é serem confundidos com os “mortais” de “mente cartesiana”. É um ultraje, um sacrilégio à disciplina do estudo. Mas a diferença entre os verdadeiros sábios e os picaretas letrados é que os primeiros resolvem os problemas, os segundos os criam. O excesso de conhecimento traz dúvidas e vieses, ele “trava as rodas” da atitude. Já dizia o velho budismo “(…) quando aprendi o Zen, montanhas voltaram a ser apenas montanhas e os mares apenas os mares (…)”. o processo da construção do conhecimento é uma análise explodida de pequenas partes, mas ele precisa ser reconstruído no seu todo para fazer sentido. Ele se torna simples e prático. É nesse ponto que alguns pseudo conhecedores se tornam inúteis por não serem capazes de trazer avanços, somente mais problemas. Quando receber uma informação, segure-a como uma peça em seu bolso. Jamais a tenha como tudo o que se tem a saber. Não caia na armadilha do Efeito Dunning-Kruger.
Então vamos falar dos macronutrientes. A maioria das pessoas pensam somente no NPK como macronutrientes, mas na verdade os macronutrientes são seis: nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre. “Ok, depois do NPK existem outros três absorvidos em menor quantidade”, alguns poderiam pensar. Não, se fosse citá-los em ordem de demanda seria nitrogênio, potássio, magnésio, cálcio, fosforo e enxofre. Mas então por que criaram somente o NPK sem todo o resto? Essa é uma pergunta correta que vale a pena fazer. É assim por dois motivos: indisponibilidade e incompatibilidade.
A indisponibilidade se refere ao NPK como sendo os nutrientes mais suscetíveis a faltar no substrato. O nitrogênio por ter uma demanda muito alta, o potássio por ser um cátion que pode não estar retido no CTC o suficiente para atender a demanda das plantas e o fósforo por ser altamente reativo com as argilas compostas por metais e ficar inerte ao se ligar com o ferro, alumínio e magnésio. Então o pacote NPK é para remediar essa tendência natural dos solos. O cálcio e o magnésio já não sofrem tanto essa tendência, desde que haja um bom CTC.
A incompatibilidade se refere exclusivamente ao fósforo, por ser muito reativo inclusive com os cátions Ca2+ e Mg2+ e formar compostos altamente insolúveis que se tornam inúteis para a nutrição das plantas. É por isso que não existe um “all-in-one” respeitável que misture P com esses cátions. É importante que se entenda isso. Esses cátions, por sua vez, quando há a necessidade de suplementá-los, é feito separadamente. É por isso que recomendo que não fertilizem P no mesmo dia que se corrige o GH.
Mas e o enxofre?
Bem, o enxofre é um macronutriente bastante ativo no metabolismo vegetal e não pode ser desprezado. Ele tem algumas funções enzimáticas importantes e também, estruturais em proteínas responsáveis pelo transporte de elétrons na fase clara da fotossíntese (fotofosforilação) dentro dos cloroplastos. Além disso também cumprem uma função notável na construção de proteínas ao servir de liga entre aminoácidos (proteínas são basicamente associações de aminoácidos unidos por átomos de enxofre). Em outras palavras, sem enxofre não há fotossíntese e não há crescimento.
De forma geral, o enxofre é bem abundante nos solos e é mais raro que ocorra sua deficiência. Apesar disso, ele acaba sendo adicionado colateralmente pela suplementação dos cátions K, Ca e Mg. O enxofre (me refiro principalmente ao sulfato SO42+), assim como o fósforo, também é um ânion bem reativo com os cátions, mas as ligações não são tão rápidas, fortes e persistentes como as do fósforo (o P reage com os cátions algumas milhares de vezes mais rápido que o S). Portanto, os sais resultantes são relativamente insolúveis, mas são mais instáveis e se soltam mais facilmente em condições redutoras.
Todavia, a entrada do S na fertilização dos cátions não é uma regra. Alguns suplementos de cátions são feitos a base de cloreto ao invés de sulfato por serem mais solúveis e causarem menos turbidez na coluna d’água (à base de cloretos eles são líquidos e à base de sulfatos eles são sólidos que demoram para dispersar). Aquários que usam corretores de GH a base de cloretos depende de outras três vias de entrada do S: da fertilização do K (quando feitos de sulfato de potássio), dos desclorificantes (condicionadores) à base de tiossulfato (de sódio ou de potássio) e da água de reposição (se tiver a oportunidade, verifique a análise da sua água da rede pública e veja qual é a presença de sulfatos, se tiver). Esses aquários são mais vulneráveis à carência de S.
As rochas ígneas (rochas feitas de manto endurecido de magma vulcânico) podem ser ricas em sulfatos, mas é difícil contar com a sua liberação espontânea na coluna d’água em condições mais oxidantes. Então essa possibilidade é nula ou irrelevante.

Figura 1 – Rochas ígneas possuem alto teor de enxofre, mas não se pode considerar relevante sua liberação para a coluna d’água.
Os sintomas de deficiência do S nas plantas é algo muito pouco estudado pelos aquaristas e imagino que a maioria nem considera sua presença como um fator importante para a saúde do aquário plantado. Na verdade, os sinais de falta de S são um pouco difíceis de serem identificados por se parecerem muito com os sinais da falta de Mg, Mn e até de K. Dificulta ainda mais pelo fato de cada espécie apresentar os sinais de maneiras diferentes, o que não forma uma observação típica, um padrão visual como aquele que vemos na falta de K, Ca, N e Fe. Isso se deve ao S não ser nem muito solúvel nem muito insolúvel no floema de maneira que ele é um nutriente mais móvel em algumas plantas e menos em outras. De forma geral, o sinal mais recorrente é um ligeiro desbotamento das folhas entre os veios, em algumas plantas nas folhas mais velhas, em outras nas folhas mais novas e em outras na planta toda. O desbotamento pode surgir como clorose a partir das bordas das folhas, sugerindo falta do K, mas com a diferença de preservar os veios verdes. Se a desnutrição persistir, as bordas podem necrosar e levar as pessoas a acreditarem que o nutriente que está faltando é definitivamente o K. Ao suplementar o K a base de sulfato, o problema acaba se resolvendo: mira-se num alvo e acertar outro, mas com o mesmo efeito. Nem sempre se tem essa sorte. É por isso que é importante notar o surgimento dos sinais logo no início para evitar que a evolução deles se tornem confusos e impossíveis de serem identificados com melhor precisão. Às vezes a chance de saber exatamente o que está havendo passa muito rápido, sobretudo nos sistemas de alto ritmo em que as coisas desandam muito rapidamente.

Figura 2 – Sinais de deficiência de enxofre em folhas de soja.
O enxofre parece não influenciar a área foliar e a princípio as plantas não evoluem para necrose ou lesões preocupantes tão rapidamente como na falta de N, mas têm o crescimento inibido ou suprimido (esse é um sinal recorrente da falta de todos os macronutrientes). Algumas literaturas relatam diminuição no entrenó dos caules, mas não há experiência suficiente dentro do aquarismo para sustentar essas características como verdadeiras ou relevantes. Talvez seja por isso que os aquaristas não costumam se preocupar ou então nem mesmo conseguem notar esses sinais, mas é algo que devemos dedicar alguma atenção e começar a colecionar experiências e relatos para nosso hobby.
Obviamente, quando esses sinais surgem as pessoas devem agir baseados na probabilidade. Uma vez que o S é o nutriente que MENOS TENDE a sofrer indisponibilidade no sistema, a conduta deve seguir considerando a deficiência de Mg, ou seja, subindo um pouco o GH. Ao fazer isso, tanto o cálcio quanto o magnésio devem subir, a menos que se use um produto exclusivo de Mg. Sendo a causa a falta de S ou de Mg, se o produto for feito a base de sulfato, o problema deve ser resolvido rapidamente. Se o corretor de GH ou suplemento de Mg forem feitos de cloreto e o problema persistir, vale experimentar algum produto a base de sulfato. Se mesmo assim os sinais não desaparecerem satisfatoriamente, então a deficiência pode ser de Mn e vale aumentar um pouco a dose de micronutrientes. Desconfie dessa hipótese, porque é muito raro um aquário que recebe micronutrientes sistematicamente mostrar sinais de falta de manganês ou qualquer outro micronutriente com exceção do ferro.

Figura 3 – Staurogyne apresentando o desbotamento típico entre os veios. Será falta de Mg ou de S?
A planta que sente mais rapidamente uma eventual falta do enxofre é a Staurogyne (sempre ela). Ela fica manchada em toda a sua altura (nem nos topos, nem nas bases de forma predominante) e eventualmente evolui para lesões nas folhas mais velhas ou o irritante “melado”. Staurogynes sadias tem um tom verde uniforme e as folhas são planas. É bem evidente que em alguns aquários elas ficam com os entrenós bastante curtos com intensa produção de raízes adventícias surgindo dos caules e ficam com uma aparência bastante densa, enquanto em outros elas ficam mais esticadas. Ainda não temos experiência suficiente para afirmar que essas alterações morfológicas são decorrentes de algum tipo de deficiência ou se é apenas uma conformação decorrente do seu meio ambiente.

Figura 4 – Staurogyne com aparência saudável: folhas planas de verde uniforme.
A Staurogyne é uma planta que se tornou bastante popular no aquário plantado nos últimos anos e tem-se visto muitas alterações morfológicas interessantes que chegam a sugerir variações de espécies. O mesmo também pode ser observado com as Cryptocorynes e Anubias. Ou essas plantas são mais suscetíveis à deficiência de algum nutriente que desbote entre os veios das folhas (Mg ou S), ou acaba sendo mais fácil notar simplesmente pelo fato da área foliar ser maior. De qualquer forma, são mais perguntas que respostas como sempre, mas são as perguntas certas que conduzem nosso hobby pela evolução.
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É uma família de fertilizantes projetada e criada pelo Eduardo Fonseca Jr, estudioso da ciência do aquário plantado, escritor de quatro livros do assunto (de título A Ciência do Aquário Plantado). Clique aqui e conheça a linha de produtos FLORAUP!
